Tríplice Aliança – parte I
Estela se olha no espelho. Sua felicidade é digna de uma boa gargalhada, mas o frio na barriga permite, apenas, um sorriso reflexivo. Júlia, sua melhor amiga (praticamente sua alma gêmea), arruma uma mecha de cabelo que cai do coque feito no topo da cabeça. Uma ajuda a outra, uma deseja à outra a maior felicidade do mundo. Os olhos são os indicadores das emoções. Nenhuma palavra havia sido dita naquele dia. Era o dia do casamento de Estela e também era o dia do casamento de Júlia.
As duas estão prontas. Levantam-se. Uma respirada profunda. A partir dali, alívio e expectativa. Elas se abraçam e caminham de mãos dadas. Estela e Júlia entram no mesmo carro, seguem em direção à mesma igreja. O motorista olha para as duas sem entender quem é a noiva. Elas percebem a dúvida e não se importam. Afinal, esse tipo de situação era habitual em suas vidas.
As portas da igreja se abrem. As duas entram sincronizando passos. Não há nenhum pai, avô ou irmão para guiá-las. A segurança de uma está na mão da outra. Pelo caminho, rostos de amigos queridos. Os mais queridos estão, obviamente, no altar à espera das duas. Não se trata de um casamento duplo. As duas estão a caminho da mesma comunhão. No altar, Fábio olha para as noivas emocionado. Seu sonho de criança está prestes a se realizar. Ele vai casar com as duas mulheres da sua vida...
1990. Fábio tem 11 anos e se prepara para a volta às aulas. Acordou meia hora antes de o despertador tocar. Estava com uma agitação atípica. Há dias tinha o mesmo sonho: entrava em uma sala e duas meninas puxavam seus braços. Uma de cada lado, lhe partindo ao meio.
Havia tempo suficiente para tomar banho, se arrumar, tomar café e ir para a escola na sua bicicleta verde e azul. Ligou o chuv
eiro e encostou a cabeça na parede. A água escorrendo, quente, ardia como arranhões nas costas banhadas com álcool. A pele estava toda vermelha. Ficou assim alguns minutos. O sonho que se repetia não saía da cabeça. Espelhos e vidros embaçados...
7:30 da manhã. Estela desperta de um pesadelo aos pulos! Olha o relógio e vê que está atrasada para ir ao colégio novo. Ela tinha acabado de se mudar do Rio para Brasília e hoje era o seu primeiro dia de aula. A sua sorte era morar no mesmo quarteirão do novo local de estudos. Escovou os dentes, vestiu-se, pegou uma banana e foi caminhando até o prédio. Ainda perdida, procurava a sua sala. Viu uma menina loira e cheia de livros. "É uma nerd, deve saber me informar onde fica a turma C."
-Ei, por favor, você sabe onde fica a turma C?
7:22. Fábio sai de casa montado em sua bicicleta. O clima ainda está chuvoso e a pista, molhada. O sol começa a sair e ele fecha os olhos por um instante. O vento seca o seu cabelo molhado. Respira fundo e sente o cheiro da grama cortada. Ele pedala do começo da Asa Sul até o começo do Lago Sul. Adora ir para o colégio pedalando. Chega, prende a bicicleta a uma corrente que está na grade ao lado do portão da entrada. Dá bom dia para o seu Antônio e pede que ele olhe a bicicleta. Anda rumo à sala. Ele está na turma C...
O sinal toca e ele apressa o passo a caminho da sala. Todos os alunos já haviam sentando. Ele era o último a chegar. O único lugar vago é aquele atrás de uma menina loira que já tinha sido sua colega no ano passado. Ele caminha em direção a ela sem saber se fala "oi" ou senta calado. Ela abaixa a cabeça. Ele senta calado. Durante o primeiro horário, a loira à frente e a menina ao lado trocam bilhetinhos e riem.
"Com esse eu casava."
"Eu também."

O próximo horário era no laboratório e trios deveriam ser formados. Estela era mais comunicativa que Júlia, logo, convidou Fábio para juntar-se a elas. Ele aceitou o convite. A partir dali os dias se passaram e os três se entendiam cada vez melhor. Fábio, apesar da pouca idade, era muito articulado com as mulheres e se divertia conversando com as duas durante as aulas e os recreios.
Dias, meses, anos... Os três eram inseparáveis. Fábio aprendeu a cozinhar e fazia de Estela e Júlia suas principais cobaias. O lado cultural de Estela decidia os programas dos finais de semana e a paixão de Júlia por viagens definia o destino de cada Réveillon. Um completava o outro. Um apoiava o outro. Anos se passaram sem nenhum romance, até que em um Ano-Novo em Londres...
Continua em 48 horas...


















