Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Tríplice Aliança – parte I

Estela se olha no espelho. Sua felicidade é digna de uma boa gargalhada, mas o frio na barriga permite, apenas, um sorriso reflexivo. Júlia, sua melhor amiga (praticamente sua alma gêmea), arruma uma mecha de cabelo que cai do coque feito no topo da cabeça. Uma ajuda a outra, uma deseja à outra a maior felicidade do mundo. Os olhos são os indicadores das emoções. Nenhuma palavra havia sido dita naquele dia. Era o dia do casamento de Estela e também era o dia do casamento de Júlia.

As duas estão prontas. Levantam-se. Uma respirada profunda. A partir dali, alívio e expectativa. Elas se abraçam e caminham de mãos dadas. Estela e Júlia entram no mesmo carro, seguem em direção à mesma igreja. O motorista olha para as duas sem entender quem é a noiva. Elas percebem a dúvida e não se importam. Afinal, esse tipo de situação era habitual em suas vidas.

As portas da igreja se abrem. As duas entram sincronizando passos. Não há nenhum pai, avô ou irmão para guiá-las. A segurança de uma está na mão da outra. Pelo caminho, rostos de amigos queridos. Os mais queridos estão, obviamente, no altar à espera das duas. Não se trata de um casamento duplo. As duas estão a caminho da mesma comunhão. No altar, Fábio olha para as noivas emocionado. Seu sonho de criança está prestes a se realizar. Ele vai casar com as duas mulheres da sua vida...

1990. Fábio tem 11 anos e se prepara para a volta às aulas. Acordou meia hora antes de o despertador tocar. Estava com uma agitação atípica. Há dias tinha o mesmo sonho: entrava em uma sala e duas meninas puxavam seus braços. Uma de cada lado, lhe partindo ao meio.

Havia tempo suficiente para tomar banho, se arrumar, tomar café e ir para a escola na sua bicicleta verde e azul. Ligou o chuveiro e encostou a cabeça na parede. A água escorrendo, quente, ardia como arranhões nas costas banhadas com álcool. A pele estava toda vermelha. Ficou assim alguns minutos. O sonho que se repetia não saía da cabeça. Espelhos e vidros embaçados...

7:30 da manhã. Estela desperta de um pesadelo aos pulos! Olha o relógio e vê que está atrasada para ir ao colégio novo. Ela tinha acabado de se mudar do Rio para Brasília e hoje era o seu primeiro dia de aula. A sua sorte era morar no mesmo quarteirão do novo local de estudos. Escovou os dentes, vestiu-se, pegou uma banana e foi caminhando até o prédio. Ainda perdida, procurava a sua sala. Viu uma menina loira e cheia de livros. "É uma nerd, deve saber me informar onde fica a turma C."

-Ei, por favor, você sabe onde fica a turma C?

-Sei, é a minha turma. Você é aluna nova?
-Aham. Acabei de chegar do Rio...
-Ah! Minha família toda é de lá! Só eu que nasci aqui. Eu A-M-O o Rio.

-Lá é ótimo mesmo. Mas meus pais vieram trabalhar aqui, então...

As duas foram caminhando até a sala e no caminho descobriram que tinham várias coisas em comum... Sentaram-se uma ao lado da outra. Estela e Júlia adoravam as mesmas bandas. As duas tinham parentes no Rio e apartamentos no mesmo bairro. Gostavam de tomar sol, de sorvete de pistache... a amizade nascia naquele instante.

7:22. Fábio sai de casa montado em sua bicicleta. O clima ainda está chuvoso e a pista, molhada. O sol começa a sair e ele fecha os olhos por um instante. O vento seca o seu cabelo molhado. Respira fundo e sente o cheiro da grama cortada. Ele pedala do começo da Asa Sul até o começo do Lago Sul. Adora ir para o colégio pedalando. Chega, prende a bicicleta a uma corrente que está na grade ao lado do portão da entrada. Dá bom dia para o seu Antônio e pede que ele olhe a bicicleta. Anda rumo à sala. Ele está na turma C...

O sinal toca e ele apressa o passo a caminho da sala. Todos os alunos já haviam sentando. Ele era o último a chegar. O único lugar vago é aquele atrás de uma menina loira que já tinha sido sua colega no ano passado. Ele caminha em direção a ela sem saber se fala "oi" ou senta calado. Ela abaixa a cabeça. Ele senta calado. Durante o primeiro horário, a loira à frente e a menina ao lado trocam bilhetinhos e riem.

"Será que os nossos gostam também combinam com homens?"

"Com esse eu casava."

"Eu também."

O próximo horário era no laboratório e trios deveriam ser formados. Estela era mais comunicativa que Júlia, logo, convidou Fábio para juntar-se a elas. Ele aceitou o convite. A partir dali os dias se passaram e os três se entendiam cada vez melhor. Fábio, apesar da pouca idade, era muito articulado com as mulheres e se divertia conversando com as duas durante as aulas e os recreios.

Dias, meses, anos... Os três eram inseparáveis. Fábio aprendeu a cozinhar e fazia de Estela e Júlia suas principais cobaias. O lado cultural de Estela decidia os programas dos finais de semana e a paixão de Júlia por viagens definia o destino de cada Réveillon. Um completava o outro. Um apoiava o outro. Anos se passaram sem nenhum romance, até que em um Ano-Novo em Londres...

Continua em 48 horas...

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

O karma de Moema

Moema. Pobre Moema. Tinha os cabelos da Julianne Moore; os lábios da Angelina Jolie; os peitos da Érika Eleniak; a bunda da Juliana Paes; os pezinhos da Jodie Foster; a beleza da Sharon Stone; a doçura da Natalie Portman; a leveza da Juliette Binoche; a sensualidade da Megan Fox; e o rebolado da mulher brasileira. Eram tantos os atributos a favor que pareciam abuso contra as demais terráqueas. Talvez por isso uma maldição recaiu sobre a mocinha nascida e criada na capital do país.

Moema tinha 22 anos. Tão virgem quanto Iracema, a índica tabajara dos lábios de mel. Não se fazia intransponível, no entanto, por falta de iniciativa. Não, não. Moema enlouquecia os homens. Qualquer um. Nem precisava esforço. Casados e muito bem casados, répteis e anfíbios, jovens, adultos, idosos, crianças, assexuados. Até mulheres a garota tirava do sério. Pena que a educação católica não a deixava sequer lucubrar sobre o tema. O negócio dela era macho. Mesmo que nunca tivesse ido para a cama com um representante da espécie.

A culpa de tamanha pureza também não era dela. Ou melhor: a responsabilidade não era dela. Os homens simplesmente não sabiam se controlar diante de tantas (mas tantas mesmo) atrações em uma mulher só. Gozavam antes de tirar a roupa. Ridículo assim. Agiam com incompetência quase uniforme. Primeiro, conheciam Moema. Depois, se apaixonavam por Moema. Logo em seguida, queriam comer Moema. Mas não conseguiam. Para desespero e agonia da jovem, obrigada a testemunhar seguidamente o ex-futuro pretendente a molhar as calças como criança mijada.

Moema tentou todo tipo de parceiro. Mas o comportamento uníssono tornava todo homem apressadinho. Até os mais experientes sucumbiam à beleza singular da mulher. Enxergar Binoche, Eleniak, Foster, Fox, Jolie, Moore, Paes, Portman, Stone, todas juntas em um corpo só, era demais para qualquer cueca. Quando voltavam a si, o jato de porra tinha voado zíper afora. Já havia esguichado perpendicularmente às coxas como aspersor giratório em jardim florido. E Moema, pobre Moema, mais uma vez se via limitada a reparar a cachoeira quente que passava ao largo do receptáculo da brasiliense.

Também não adiantava cobrir a formosura do corpo. Se escondia o corpanzil estilo violão(zão), o rosto bem-delineado por si só fazia a machalhada perder a pose. Se vestia blusinhas mais largas na altura do peito, a bunda deliciosa chamava a atenção. Os pezinhos de fora também provocavam obscenidades nunca dantes vistas. Tornou-se rotina Moema reparar nos vulcões que brotavam das calças usadas pelos homens a babar por ela. A ponto de a jovem se imaginar coberta dos pés à cabeça com uma burca escura.

A ansiedade por uma transa decente levara Moema a apelar em determinadas situações. Certa feita, aproveitou a festa de aniversário de uma amiga alternativa para arriscar uma trepada capaz de acabar com o tormento. Escolheu um rapaz boa-pinta e tomou a iniciativa:

- Oi. Meu nome é Moema. Vamos transar?

A mocinha demorou alguns segundos para ouvir a resposta:

- Me dá 20 minutos? Preciso me recompor – falou o sujeito, com cara de guri cagado.

A última vez que deu notícia aos mais íntimos confessou a dedicação ao retiro espiritual. Disse que se converteu ao budismo e se mudou para o Rio Grande do Sul. Há dois anos vive no templo Chagdud Gonpa Khadro Ling, em Três Coroas, caminho para Gramado e Canela. Parece que provocou alvoroço logo nos primeiros dias. Monges secularmente equilibrados perderam as estribeiras e desapareceram do pedaço. Moema se dedica agora a entender o próprio karma: o da beleza divina. Ah, e continua virgenzinha. Tanto quanto Iracema.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Minha Vida, Minha História, Meu Amor..

Abril de 1979. O pequeno feto ainda se alimentava via cordão umbilical quando um maluco chamado Luiz aproximava o rádio de pilha na barriga de uma maravilhosa mãe chamada Tereza. Não, o rádio não tocava canções de ninar. Saíam das pequenas caixas de som os gritos de gol do Sport Club Corinthians Paulista. O ritual se repetia a cada domingo, a cada jogo do Timão, a cada gol de Sócrates, Casagrande, Palhinha, Ataliba.

Maio de 1979. O mesmo Luiz, jornalista em São Paulo, vai ao treino do Corinthians para fazer uma reportagem qualquer sobre a equipe. Na saída dos jogadores do campo, três autógrafos são pedidos aos craques daquele esquadrão. Para ele próprio, não. Para o filho, que nasceria um mês depois. “Ao José Thiago, com muito carinho. Que você nasça mais um corinthiano feliz. Um grande abraço do Sócrates”, dizia a mensagem, só entendida por mim vários anos depois, quando meu pai me presenteou com os autógrafos do doutor, do Casagrande e do Palhinha.

Nascia, de fato, um corinthiano fanático.

O que é ser corinthiano? Ser corinthiano é ter gritos de guerra que não xingam os adversários. A paixão alvinegra transcende qualquer rivalidade. Ao declarar o nosso amor ao Corinthians, não sujamos nossas bocas e nossos cantos com nomes de rivais sem qualquer importância.

Ser corinthiano é saber não somos um time que tem uma torcida. Somos uma torcida que tem um time. Ser corinthiano é saber que nada na história do esporte equivale à Invasão Corinthiana de 1976, quando 70 mil loucos invadiram o Rio de Janeiro e dividiram o Maracanã com a torcida tricolor carioca – e vencemos, diga-se.

Ser corinthiano é saber que fomos o primeiro time de São Paulo a aceitar negros em nosso elenco, lá atrás, nos idos de 1910, 1915.

Ser corinthiano é fazer parte do primeiro movimento público contra a ditadura militar no Brasil. No fim da década de 70, a torcida do Corinthians levantava faixas de "Ampla, Geral e Irrestrita" e "Presidente quem escolhe é a gente" numa movimento silencioso pela anistia dos bravos exilados desta nação gloriosa.

Movimento este que contaminaria o time de futebol, já na década de 80, com a chamada Democracia Corinthiana. Não era um mero movimento de jogadores que determinavam como a seria a organização do time. Não, não e não. Era um movimento político-social contra o massacre dos militares.

Ser corinthiano é fazer loucuras. É gritar loucamente o nome do Corinthians imediatamente depois de tomar um gol. É explodir de alegria a cada gol, a cada milagre do goleiro, a cada carrinho do zagueiro, a cada título guerreiro.

Ser corinthiano é saber que sua paixão não se restringe a um mero clube de futebol. Ser corinthiano é saber que faz parte de uma nação. Ser corinthiano é assistir ao documentário Fiel e chorar como uma criança de dois anos. Ser corinthiano é estar no estádio em qualquer jogo do Timão e encher os olhos de lágrima com os cantos, com os gols, com aquela ligação única de time e torcida, jogador e massa, equipe e nação.

Ser corinthiano é tratar outro corinthiano como um irmão. É ir ao Morumbi para a final de 1998 com um primo pequeno e ver a arquibancada inferior do estádio completamente lotada. Não havia qualquer chance de sentar ou mesmo de ver o jogo. Do nada, um gordão esquisito solta o berro: “Aê, corinthianada, vamo espremer aí! Tem irmão corinthiano com moleque pequeno aqui sem lugar pra sentar. Bora! Bora! Abre que dá para todo mundo ver o jogo na boa!”. Dez segundos depois, um espaço confortável para mim e meu primo se abriu. Como mágica, como uma ode à paixão pelo mesmo clube, pela mesma nação, pela irmandade que nos une.

Ser corinthiano é ligar para o seu pai, do nada, e dizer: “Pai, te amo”. Eu também, filho. Mas por que essa declaração, assim, do nada? “Você me fez corinthiano. Já basta.”

Ser corinthiano é saber que o grito mais lindo da Fiel Torcida não é apenas uma bravata futebolística. É a história de cada um de nós: “Corinthians Minha Vida... Corinthians Minha História... Corinthians Meu Amor...”

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Por um instante

- Te quero.

Ela vivia uma crise no casamento. Loura, linda, de olhar curioso e rebelde, enviou a mensagem pelo telefone celular às 3h45. Desejava, instintivamente, uma noite de entrega com o homem por quem nutria um carinho de todo especial - mais do que isso, ela não sabia. Agora, após cinco anos de casada, ainda confiava nele como nunca. E não era apenas pelo sexo do passado. Mas pelos eternos zelo, aprendizado e, acima de tudo, paixão.

Antes da mensagem enviada pelo celular, o então casal - jamais casal de fato - se encontrara horas antes. Marcaram de se ver em um bar escondido em um canto obscuro da cidade. Haviam se conhecido em épocas de solteirice aguda. Casaram-se com outros. Mas construíram e mantiveram intimidades que nenhum dos parceiros imaginava. Mesmo sem transar há anos.

O encontro fora marcado pouco antes da ida dela para a festa de despedida de solteira da melhor amiga. Começara como tantos e tantos outros. Sorrisos envergonhados, olhares de mistério e de tesão e o sempre presente frio na espinha. O receio do proibido e o medo da descoberta criavam uma atmosfera atraente. Nada parecido com os e-mails quase diários e as ligações fortuitas. Apesar da distância, parecia que o tempo não passara. E que ontem mesmo estavam juntos.

Falaram de tudo um pouco. A vida de solteiro, a vida de namoro, a vida de amante, a vida de casado, a vida de casada. Sucessos, decepções, inseguranças, alegrias, orgias, confidências, trabalho, banalidades. A cada palavra, frase ou piada, o eco da dúvida. Nem precisava falar. Mas como seria se tivessem coragem de ficar juntos? Duas pessoas diferentes em tudo... Gostos, projetos, sonhos, entusiasmos, nada parecia se encaixar. Pelo menos ao longe. Mas bastava se encontrar para surgir o calor, o ardor e a vontade de se abraçar como bicho-preguiça.

A ligação de uma amiga dela, porém, revelara o inevitável: o tempo se acabara. Ela tinha compromisso. Ele precisava voltar para casa. Urgentemente. “Tenho 10 minutos”, sentenciou a loura, de corpo capaz de se admirar o dia todo. Correram para o carro dela. Ele a segurou pela nunca, trouxe a boca dela para perto da dele e beijou-a com extrema dedicação. Que beijo... A mão logo passeou pelas seios, as coxas e alcançou o meio das pernas da moça. Ela gemia; ele gemia. Sairiam dali para um lugar mais calmo? Sim. Se não fosse pelas insistentes ligações das amigas. E talvez um pouco de culpa dos dois.

Gastaram o restante do tempo sem se importar com as pessoas que passavam rente ao veículo. Se algum conhecido os reconhecesse, o mundo de quatro pessoas desmoronaria como geleiras do Ártico. Era hora de ir embora. Mais dois ou três beijos sofridos, e ele a largou com os olhos espremidos. “Te amo. Sempre. Seja feliz”, desejou ele. Ela baixou os olhos e sorriu. Pediu, apenas com o olhar, que ele fosse embora. Antes que desse merda.

Às 3h44, a loura deixou a festa de lado. Pegou o celular e, segura de si, escreveu o que o instinto mandou: “Te quero”. Se a tão esperada noite de saudade e de entrega realmente ocorreu, ninguém sabe. Nem os amigos mais íntimos souberam. Mas, se o amor e a paixão um dia caminharam juntos, estiveram ali, diante daquele casal, em um momento único e especial.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

O sonho americano de Eleonora

Eleonora e Orácio namoravam há dois anos. Era um namoro com futuro incerto diante da promessa feita pelo rapaz quando passou no vestibular: no decorrer da faculdade, juntaria o maior volume de dinheiro possível. Ao se formar, viajaria de mochilão por Estados Unidos, México e Canadá sem data certa de retorno ao Brasil. A moça se entregou totalmente ao relacionamento já ciente da aventura vindoura do moço.

Quando a formatura de Orácio se aproximou, Eleonora percebeu a movimentação do rapaz. Programava a empreitada. Ela não tinha qualquer objeção à aventura e, em nenhum momento, pediu para ir com o amado. Sabia muito bem: tratava-se de um plano individual. E ela, muito independente e empreendedora, também tinha responsabilidades e afazeres profissionais. Não havia a menor condição de deixar o país por tanto tempo.

Certa feita, depois de um SLEA histórico do namoro, Eleonora resolveu tocar no tema.

- Como será quando você viajar?

- Como será? Como assim? Não entendi.

- É. Como será. Nós vamos continuar namorando à distância?

- Ah, sim, entendi. Ué, meu amor, acho que não há motivo para terminarmos o namoro. A viagem não tem qualquer conotação guerreira. Quero conhecer a América do Norte. Podemos continuar juntos. Não devo ficar mais do que seis meses fora.

A conversa terminou com um abraço apertado e um grande alívio no coração de Eleonora. Não queria perder Orácio.

Duas semanas depois do baile de formatura, no qual Eleonora atuou como a protagonista da festa do namorado – dança de valsa, foto para posteridade, organização de apitaços, abraços carinhosos do sogro e da sogra –, Orácio partiu rumo Cancun. Começaria a viagem da pontinha do México e seguiria de ônibus até a fronteira. O trecho chicano duraria aproximadamente dois meses. Iria a vinte cidades do país.

Eleonora programou a visita para dali três meses. Seria a parte mais divertida do roteiro: cruzar o mapa estadunidense numa Harley-Davidson, antigo sonho de Orácio. A moça chamou a irmã, Isabel, e o cunhado, Alfredo, também motociclista, para irem com ela visitar o amado. Toparam na hora. Passariam um mês a viver o sonho americano.

O casal trocava e-mails constantemente. Quando ele estava em cidades com mais estrutura, as conversas eram diárias. MSN, Skype, Gmail. Tudo era usado para manter os laços afetivos intactos. Eleonora só pensava na viagem aos Estados Unidos. Planejavam à distância todos os detalhes.

O belo dia chegou. Eleonora embarcou para Chicago, de onde parte a Rota 66 e de onde sairiam as motocas. As economias dos últimos meses lhe dariam conforto na viagem para comprar o que quisesse – sobretudo em Los Angeles, onde não precisaria mais se preocupar com o peso da mochila. A metrópole californiana era o ponto final da empreitada.

O reencontro com Orácio não foi exatamente o que esperava Eleonora. Ao invés de um abraço-prolongado-daqueles-de-novela e um beijo caloroso, foi recebida com um abraço menos empolgado do que a situação merecia e um beijo... protocolar. Talvez fosse coisa da cabeça dela. Talvez não.

Ela, ao lado de Alfredo e Isabel, chegou no final da manhã. Apenas deixaram as mochilas no hotel e foram dar uma volta na belíssima Chicago. Caminharam pela cidade, foram ao Museu de História Natural, tomaram sorvete no Millennium Park. Orácio era carinhoso, mas Eleonora estava com um pé atrás. Queria mais toque. Mais chamego. Mais beijo. Mais daquele cafuné na nuca que só ele fazia, despretensiosamente. Enfim, mais carinho mesmo.

No fim da tarde, quando ainda terminavam o tal sorvete no Millennium, a irmã e o cunhado foram dar uma volta. Combinaram, então, de se encontrar dali a meia hora. Seriam os primeiros minutos a sós.

Orácio sentou Eleonora em um banco (é isso mesmo, ele sentou a moça como quem coloca uma criança de castigo ou ajuda um idoso a se acomodar na poltrona velha).

- Precisamos muito conversar, disparou o rapaz, sem enrolar.

- É, meu amor? O que é?

- Não vai rolar. Sua chegada aqui foi o tira-teima necessário para eu descobrir o que já vinha sentindo há algumas semanas. Não quero mais. Não sinto mais nada por você, disse Orácio, seco, sem gaguejar, firme como um arqueiro em final olímpica.

Eleonora ficou pálida.

- Ã?

Foi tudo o que conseguiu dizer.

- Me desculpe dizer isso agora. Mas eu precisava vê-la para saber o que sentia. E é exatamente isso que eu lhe disse. Não rola mais.

Os olhos dela se abarrotaram de lágrimas.

- Você me deixou vir até os Estados Unidos para dizer isso? Eu planejei essa viagem por três meses. Guardei todas as minhas economias. Sou estagiária. Ganho R$ 600,00. Peguei dinheiro com meus pais! Como você pode fazer isso?!

- Talvez não tenha sido a melhor forma ou o melhor momento. Mas eu senti isso agora. Tinha de lhe dizer. Não seria justo comigo e com você passar todo o mês juntos e terminar no último dia de viagem. Seria falso.

Um silêncio se abateu. O cunhado e a irmã de Eleonora voltaram antes do combinado. Haviam esquecido o dinheiro na bolsa da ex-namorada-abandonada-em-plena-viagem. Eleonora foi confortada pela irmã. Alfredo conversou com Orácio e ouviu as explicações do rapaz.

Orgulhosa, Eleonora não quis voltar ao Brasil. Estava tudo pago. Seguiria viagem.

No dia seguinte, alugaram as motos. Duas Harleys. Os rapazes guiariam as máquinas. As moças curtiriam o vento da garupa. Pegaram a estrada rumo a Los Angeles. Embora fosse valente, Eleonora ainda não entendia o fim do namoro. A ficha parecia não cair.

Não chorou nenhuma vez na frente do ex-namorado durante o mês inteiro. Dormiam em quartos separados, enquanto a irmã e o Alfredo viviam uma lua-de-mel. As lágrimas, no entanto, surgiam na estrada. Escondidas sob o capacete, protegidas pelo barulho do vento. Agarrada ao namorado para não cair da moto, Eleonora chorava. No asfalto, era a hora de sofrer.

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

A(s) estagiária(s)

Primeiro dia de trabalho. Melissa, estudante de comunicação social de uma faculdade particular de Brasília, logo mostrou a que veio. Decotinho perverso, coxas de fora, pezinhos docemente acomodados em sandálias de salto acrílico. Como se estivesse em uma passarela, a mocinha de 19 anos (recém-feitos) desfilou pela redação, a balançar e a balançar os quadris bem-conjuntados. Para lá e para cá, para lá e para cá. Cada banda de bundinha lembrava bochechas de nenê de tão arredondada.

A chegada de Melissa ocorreu no início da tarde. Menos da metade dos jornalistas se fazia presente. Mas os poucos representantes da fauna masculina não decepcionaram a matilha. Viraram pescoço até a apresentação da loura-violão ao chefe. Todos acompanharam com extremo ardor e atenção o primeiro boa-tarde cantado da mais nova estagiária da editoria de Internacional. Suspiraram ao pousar da bundinha arrebitada na privilegiada cadeira que a sustentaria nos próximos seis meses. No mínimo.

Melissa, como era de se esperar, precisou de exatos dois minutos para virar assunto por todo o dia. E uma semana para alcançar status singular no ambiente jornalístico. Era odiada pelas mulheres. E amada pelos homens. A estagiária tinha o dom de despertar paixões. Tanto para o bem quanto para o mal. Fazia-se o tipo de mulher que não passa despercebida. Apesar da juventude, se revelava segura e independente. Jamais dava ponto sem checar o nó de marinheiro. Sabia o que fazia, essa Melissa.

Para a mulherada, o mais irritante da mocinha era... tudo. Tudo mesmo. Acusavam-na das palavras mais vis. Criticavam-na pela arrogância, pelo "narizinho empinado". "Quem pensa que é? Não passa de uma estudantezinha de meia tigela", vociferavam algumas. Outras inventavam fofocas e a detonavam por conta das roupitchas demasiado abertas. Era sainhas com fendas de um lado e blusinhas (extremamente) decotadas do outro. O sexo feminino pós-25 anos não aguentava tamanha concorrência. Não davam mais conta.

Se dependesse dos homens, Melissinha tinha lugar assegurado no céus de Júpiter, Urano, Netuno, Saturno e que deus mais se apresentasse. A machalhada venerou a estagiária desde os primeiros segundos. Era um tal de favor para cá, favor para lá , que até ficava meio chato. "Se precisar de alguma coisa, é só falar, viu?". "Olha, meu ramal é esse. Se tiver alguma dúvida, não pense duas vezes". Melissa respondia com sorrisos e mais sorrisos. Simpaticíssima, a moça. Agradou em uníssono a gregos, troianos, romanos, casados, persas, esquimós e tupinambás.

Melissinha tinha um único defeito: o namorado. Ou pelo menos dizia que tinha. Ninguém nunca soube a verdade. Talvez o tal do João Paulo existisse apenas para manter os mais afoitos à distância. Melissa respondia com delicadeza a qualquer dúvida sobre a existência do ser. Dizia, fazendo biquinho, que ele era "tímido e muito caseiro". Na verdade, a moça era da ala das mais espertas. Se desse para alguém (publicamente), talvez não voltasse para a redação depois de formada - pelo menos pelas mãos de uma editora. Novinha, mas sábia. Bastante sábia.

Um belo dia - ou nem tão belo assim -, Melissinha sumiu sem se despedir. Parece que o contrato do estágio acabou ou ela se formou, não se soube ao certo. Certeza mesmo era o vazio deixado pela loura-caliente. As mulheres respiraram aliviadas. Alguns homens choraram pelos cantos. E a cadeira dela logo recebeu a visita de uma bunda menos atraente. A mocinha, porém, logo seria esquecida. A morena Roberta, estudante de comunicação social de uma universidade pública de Brasília, deu ontem o ar da graça. É a mais nova estagiária da editoria de Economia.

O amigo


"O verdadeiro AMIGO é aquele que comparece aos eventos dos AMIGOS"
Aniversariante José Thiago, ao agradecer a presença do conviva Guilherme ao convescote realizado no último sábado.

P.S.: Por onde andarão os Campbell?

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Dois idiotas

Antes de deixar vocês lerem o diálogo impagável travado na manhã de hoje entre Felipe e Zé Gotinha, via e-mail e comigo copiado, contextualizo toda a questão.

Dia 20 de junho é meu aniversário. Reunirei pouquíssimos amigos para comemorar. Felipe sairá de férias exatamente no dia 20 e não poderá ir ao evento. Por conta disso, hoje, dia 19, eu e ele marcamos um almoço.

Convidamos para o almoço o companheiro Zé Gotinha. Enrolado, Goutas tem o costume de não ir em parte dos eventos sociais para os quais é chamado. Porém, dessa vez, Goutas vai ao meu aniversário acompanhado de sua esposa, Maria Gotinha.

A ausência de Felipe - sempre a sacanear Zé Gotinha pelas ausências em eventos afora - foi o motivo para o início do e-mail, uma tiração de onda do Goutas. Divirtam-se como eu me diverti, ao checar meu e-mail e me deparar com 33 trocas de ofensas hilárias:

Eis o diálogo:

De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 10:26
Para: Thiago Vitale; Felipe Campbell
Assunto: Dúvida pertinente
Caro AMIGO Zethi,
se AMIGO é aquele que comparece aos eventos dos AMIGOS,
o que sobra para quem não participa dos convescotes realmente importantes para o AMIGO?


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 10:27 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Amigos vão ao almoço de hoje? Eu vou.

De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 10:28
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
"convescotes realmente importantes para o AMIGO".
Lê-se: aniversários.
Almoços acontecem todos os dias.


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 10:30 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
O moleque comparece a um evento por ano e tira onda. Não tire onda antes da hora. Pode ser que o plantão de hoje seja cansativo e o Sr. necessite de repouso amanhã à noite, para se recuperar do golpe que lhe foi aferido no Estádio Paulo Machado de Carvalho por um Obeso Pegador de Traveco na última quarta-feira.
Cordialmente


De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 10:31
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Calma, companheiro.
Estou apenas com uma dúvida, que considero pertinente.
Farei-a novamente para que o AMIGO Zethi possa respondê-la sem interferências.
"Caro AMIGO Zethi,
se AMIGO é aquele que comparece aos eventos dos AMIGOS,
o que sobra para quem não participa dos convescotes realmente importantes para o AMIGO?"


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 10:33 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Almoços com os realmente amigos são muito mais importantes para o aniversariante. A comemoração posterior, de caráter obrigatório e compulsório, trata-se apenas de uma fachada para manter o social com os coleguinhas distantes que mantêm um relacionamento formal e frio com o que chamam de AMIGO.
“Ô, o Coringão voltou, o Coringão voltou, o Coringão voltou!!!”

De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 10:38
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Continuo a aguadar o posicionamento do querido AMIGO Zethi, aniversariante do dia 20 de junho.
A festa, aliás, contará com a presença dos mais próximos.
Quem não for AMIGO, não estará presente.


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 10:42 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
A personalidade senil e antissocial de nosso conviva Gaúcho o faz referir-se a um simples encontro em boteco como “festa”.
“louco por ti corinthians, nunca irei te deixar!!!”

De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 10:44
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
AMIGO Zethi, estarei lá na tua festa, companheiro!

De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 10:46 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Tudo isso é culpa porque não irá (mais uma vez) ao almoço conosco?

De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 10:48
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
De novo:
"convescotes realmente importantes para o AMIGO".

De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 10:49 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
O que a culpa não faz...
Lembro-me bem de convescotes importantes para o amigo Carlos Emanuel, para o amigo Carlão, para o amigo Zethi no ano passado e para o amigo Demetrius este ano.

De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 10:52
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
O amigo Carlos Emanuel contou com a presença da família Gotinha no aniversário dele, em janeiro deste ano.
Os Campbell não se dignaram a comparecer.
O amigo Carlão contou com a presença da família Gotinha em um convescote na casa dele.
Os Campbell não se dignaram a comparecer.
O amigo Zethi contará com a presença da família Gotinha no aniversário dele, nesse sábado.
Os Campbell não se dignarão a comparecer.


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 11:00 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
O amigo Carlos Emanuel conta com a presença de Felipe para encontros informais, particulares e individuais em situações diversas, sem o peso de encontros obrigatórios em que você é apenas mais um dentre tantos conhecidos que não conseguem trocar 5 minutos de conversa com o verdadeiro amigo.
O mesmo se deu com Carlão, Quito, Demétrius e outros tantos, amigos que o Sr. Somente encontra quando de ocasiões cabalísticas em que, por ossos do ofício, eles convidam a todos – inclusive os inimigos e gayuchos – para o convescote. As vezes nem isso, como se pode conferir mais uma vez no aniversário do Quito.
Colega, colega, colega!!!


De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 11:03
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Tenho certeza de que o AMIGO Zethi ficará extremamente feliz com o comparecimento da família Gotinha na festa de aniversário marcada para amanhã.
Assim como ele marcará para o resto da vida aqueles que não se dignarão a colocar os pés no convescote.


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 11:04 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Culpa, culpa, culpa.
O almoço?


De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 11:05
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Putz, muito enrolado hoje.
Muito mesmo.

De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 11:07 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Hahahahaha... Huey Lewis And the News????

De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 11:09
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
E amanhã?
Vamos à festinha do AMIGO Zethi?


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 11:13 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Uma vez em cada 50 eventos ele consegue ir – e saber disso com dois dias da antecedência, o que é extremamente feminino – e aí fica tirando onda.
Como é a resposta mesmo: “enrolado, muito enrolado”, hahahahaha


De: Guilherme Rieth Goulart
Enviada em: sexta-feira, 19 de junho de 2009 11:15
Para: Felipe Campbell; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
AMIGO Zethi,
I´ll be there.


De: Felipe Campbell
Enviada em: Friday, June 19, 2009 11:17 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Thiago Vitale
Assunto: RES: Dúvida pertinente
Beleza. 12h30 nas americanas do Brasília Shopping para almoço!!

De: Thiago Vitale
Enviada em: Friday, June 19, 2009 11:19 AM
Para: Guilherme Rieth Goulart; Felipe Campbell
Assunto: RES: Dúvida pertinenteBeleza. 12h30 nas americanas do Brasília
Caralho, abri meu e-mail e passei mal de rir. Vocês são dois idiotas. Me perguntaram aqui se eu estava com algum problema, tamanhas as gargalhadas!! hahahaha!

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Malandragem dá um tempo

Tempos atrás, escrevi um texto neste mesmo espaço sobre a malandragem do brasileiro, sobre a coisa da ocasião fazer o ladrão, etc. Pois bem, passados alguns anos, é fácil perceber como a criatividade de todos – eu, tu, eles, nós, vós, eles – continua trazendo à tona mecanismos cada vez mais surpreendentes para se dar bem. Tirar vantagem. Encostar nos outros. Na cara dura mesmo. Algumas das situações abaixo são específicas e podem até criar uma certa “jurisprudência” do mal. Outras, contudo, certamente se passam, passaram ou vão passar também com você que está aí, lendo estas linhas. Ou com algum (a) malandrinho (a) próximo a você. A saber:

1) Telefonema a cobrar. Ou a variação no estilo “liga, deixa tocar uma vez e desliga”, para que você retorne e o malandro não tenha de arcar com o “pesadíssimo” custo da ligação. Parece egoísmo e mesquinharia ficar puto com isso - e seria mesmo, caso isso não fosse algo recorrente e, curiosamente, sempre com a (s) mesma (s) pessoa (s). Mas, numa boa, se você parar para ver, o amigo ou amiga que tem esse irritante hábito não é nenhum morto de fome. Pelo contrário. Via de regra, é um sujeito bem empregado, que come bem, compra suas roupas, tênis, sapatos, vestidos, programa viagens bacanas, vai para festinhas onde gasta horrores com cerva e smirnoff ice e o caralho a quatro. Só que quer transferir para você, "o amigão" e pras outras pessoas em volta dele (a) o caos financeiro criado pela total e irrestrita incapacidade de organizar suas contas. Eu já paguei o foda-se: ligou a cobrar? “END” nele (ou nela). Sem chance de eu retornar.

2) "Meu carro tá falhando, não vai dar para ir no meu carro, pode me buscar?”. “Posso ir com você? Tô sem grana para colocar a gasolina”. “Não vai dar para ir, porque vou gastar muita grana com a gasolina”. Quantas vezes você não ouve isso quando tá combinando de ir para algum lugar com um amigo ou amiga? Detalhe: não tô falando de uma viagem ou de um evento nos arredores da cidade. Mas de uma ida a algum lugar que não fica nem a 15km de onde a pessoa está. Ou seja: com dois litros de gasolina, numa estimativa conservadora, a pessoa chegaria ao local. Não dá nem R$ 5, dependendo de onde você abastece. Mas, assim como no caso acima, quem tem que arcar com a desorganização financeira alheia é o bonitão aqui. Você mesmo. Que, gentil e prestativo, até curte levar e buscar a pessoa uma vez ou outra. Porque é legal ter boa companhia para ir aos lugares. Amizade é assim mesmo. Mas, depois de um tempo, você percebe que, curiosamente, o carro da pessoa tá sempre com defeito, a gasolina é um problema eterno. Mas a maquiagem que ela gastou para passar no rosto, a caipiroska de R$ 10 que ele vai tomar, a camisa de marca que ele tá usando, ah, "isso é gasto essencial". Não pode ser cortado. Afinal de contas, amigo panaca é para essas coisas. E chapéu de otário é marreta, né?

3) Essa eu até agora não estou acreditando. Vi outro dia perto do trabalho. Uma menina queria parar o mais perto possível da entrada do prédio. Com o problema crônico de estacionamento em Brasília, a quantidade exorbitante de carros que são vomitados nas ruas a cada dia e a recusa eterna de neguinho a usar transporte público, não tem lugar para todo mundo parar onde quer. Mas a guria nem pensou duas vezes e estacionou seu bólido embaixo de uma placa de proibido estacionar. Até aí, novidade alguma. E aí vem a criatividade em níveis impressionantes: eis que a formosa mocinha saca do bolso uma notificação antiga de multa de trânsito por estacionamento proibido. E coloca no pára-brisa do vidro da frente. Como assim, Bial? É isso mesmo. A lógica dela é: “eu sei que estou errada e já já vem um policial multar. Só que quando ele olhar que já tem uma multa emitida, não vai, efetivamente, me multar”. Detalhe: ela tem vaga garantida na garagem do prédio. Mas prefere fazer essa lambança toda porque vai andar tipo 15 metros a menos para chegar no trampo.

4) Com o cerco cada vez mais apertado nas últimas semanas, a vida de quem toma umas (ou várias) e pega o volante está cada vez mais próxima de um fim trágico. Ou constrangedor e embaraçoso, no mínimo. Em um dos relatos recentemente ouvidos por um sujeito que foi parado numa blitz depois de tomar, digamos, uma quantidade consideravelmente razoável de cerveja, o teatro ganhou as ruas de Brasília. Ao ver o policial se aproximando, o camarada não hesitou e caiu num choro descompensado. O policial, assustado, perguntou o que houve e ele, na maior cara-de-pau, mandou, aos prantos e soluçando: “minha mãe acabou de ligar... um grande amigo meu morreu, cara. Acabou de morrer, eu não sei o que fazer”. O policial, coitado, ficou preocupado, disse pra ele dar um tempo ali, se recompor e ir embora só quando estivesse em condições emocionais de dirigir. Deu todo o suporte. E nem lembrou de pedir para ele soprar no bafômetro ou coisa parecida. É, amigo, eu, definitivamente, vou morrer no amadorismo. Sou escoteiro-mirim ad eternum.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

A incrível história do homem que vomita quando quer



Amsterdão é um sujeito diferente. Vomita quando quer. Vomita onde quer. Jantares finos; botecos pés-sujos; casa de família; feira popular. Não importa o horário, o evento ou a companhia. Amsterdão tem o dom. É capaz de escolher o momento de colocar para fora o que não lhe cai bem. Alimentos em excesso. Bebidas alcoólicas em demasia. Enfim, qualquer ser ou objeto que faça contato de primeiro grau com o suco gástrico do rapaz pode ser regurgitado como capivaras acomodadas nas entranhas de uma sucuri.


A singularidade de Amsterdão alcança o mecanismo do transbordo de toxinas. Ele não força o vômito. Não, não. Amsterdão é masculino. Envia proposidamente um sinal de alerta e as paredes do estômago, auxiliadas pela força do esôfago, expulsam do organismo todo e qualquer vestígio por ora rejeitado. O gesto amador de colocar o dedo na goela para facilitar a vomitada não faz parte do manual de instruções de Amsterdão. O cara é conhecido - e reconhecido - como profissional do vômito. Admirado pelos convivas e respeitado pelos colegas.

Tal qualidade também aparece cercada de mistérios. Nem os mais íntimos sabem o segredo do controle de Amsterdão. Limitam-se a absorver a informação. Também é fácil descobrir quando ele se livra quase que instantaneamente do fardo estomacal. A maioria das pessoas se sente mal depois da golfada inadvertida. Amsterdão não. Não, não. O rapaz se revigora. Deixa a condição de desconforto e alcança o estado elétrico em uma rápida visita ao banheiro ou ao jardim mais próximos - às vezes, nem isso. O cara é definitvamente um fenômeno.

Ao longo dos anos, algumas frases se tornaram clássicas na turma de amigos. A tradicional "Vou ali rapidinho e já volto" era usada sempre que estivesse em alguma confraternização mais discreta ou acompanhado de uma nova namorada. Amsterdão sumia e, em menos de um minuto, estava de volta lépido e fagueiro. O "Peraí, que vou dar uma vomitadinha" ficava reservada para as reuniões da galera. Era capaz de vomitar em meio a uma caminhada com os convivas. Apenas virava o pescoço para o lado e a golfada se perdia no asfalto ou ao pé de uma arvorezinha. Visão esquisita. Mas digna de premiações.

Poucos sabem ou imaginam, mas Amsterdão vomitou na festa de formatura. Atrás do palco, bem rapidinho. Ninguém viu. Também botou o jantar para fora em um show do Iron Maiden. Eram 25 mil pessoas. E nenhum ogro em meio à multidão sacou de quem saíram os nacos de arroz e salsichas mal mastigados sendo expelidos em uma única massa úmida e quente. Amsterdão apenas envergou o corpo e, pimba, o bolo se fué. Um dos maiores feitos dele, no entanto, rolou na pequena pista de dança do Gate´s Pub, em Brasília. Sentiu que a tequila não caiu bem e abriu o bocão sem a menor cerimônia. Recompôs-se em segundos. Se alguém visse a cena, jamais diria que o vomitão relâmpago era um vomitão de verdade.
Apesar do aparente descuido de Amsterdão, nunca fora flagrado no processo de regurgitação alimentícia. Nem em rodovias congestionadas. Uma vez vomitou a 100km/h na BR-101, entre Porto Alegre e Santa Catarina. O movimento fora tão rápido, mas tão rápido, que nem o amigo motorista sacou o arremesso. Pensou em se tratar de um mísero chiclete descaratado. Era o pastel comido meia hora antes. O nosso herói Amsterdão é asssim, um sujeito diferente.