terça-feira, 10 de novembro de 2009

Territorial Pissings

Essa porra dessa internet é muito bacana, né? Fácil de pesquisar tudo, saber um pouco de tudo e muito de nada, encontrar as coisas, as pessoas queridas, as não tão queridas, desconhecidas que não encontraríamos nunca anos atrás. Enfim, dá pra fazer tudo nessa joça.

Tenho dois blogs, uso muito e-mails tanto em casa como no trabalho e MSN (só em casa) eventualmente. Então converso muito com neguinho (a) pela web mesmo. Principalmente em horários fora da hora da etiqueta (depois de 22h), quando fica chato ligar para as pessoas, eu acabo me expressando melhor por e-mail mesmo. E também tem o lance da conversa descompromissada. Quantas pessoas você vê online no MSN altas horas da noite e jamais pensaria em ligar ou falar com elas caso elas não tivessem ali, onlines? Acho isso muito bom, já reforcei, renovei e cultivei várias amizades nesse esquema. Muito legal a tal da internet.

Algumas coisas, porém, eu não acho legais. E confesso, aqui, que sou uma das maiores presas e vítimas desse mundo virtual onde temos tempo, espaço e liberdade para desenvolvermos nossos raciocínios – corretos ou não – numa linha de pensamento em que dificilmente você acaba não sendo agressivo, arrogante, direto, excessivamente sarcástico e irritante.

Nesses últimos tempos, porém, acho que às vezes passo do ponto. Já me desentendi com vários amigos e amigas por conta de termos meio agressivos que eu usei ou que usaram comigo na internet. Também já fiquei extremamente magoado e sentido com coisas que me disseram com uma frieza siberiana pela web. Ou já me expressei de forma tão cruelmente precisa e verdadeira com outras pessoas pela internet que elas, tempos depois fui descobrir, ficaram magoadas comigo. Às vezes até mesmo a falta de resposta ou a expectativa que as pessoas têm em cima de uma resposta sua à altura daquele e-mail incomensurável que ela mandou são motivos de atrito.

Estamos vivendo um verdadeiro redirecionamento dos meios de comunicação. Telefone virou um detalhe. É mais um deles apenas. E longe de ser o principal. MSN, e-mail, redes virtuais (não sou fã delas, nem Orkut tenho), SMS, twiter (desse eu passo também), blogs, sites. Caralho. Muita nerdice. Não dá para lidar com tudo isso ao mesmo tempo.

Conheço gente que terminou relacionamento pelo MSN. Outros já se enrascaram porque deram resposta atravessada pelo SMS. Um simples “te ligo já” pode ser entendido de maneira diferente pelo destinatário da mensagem dependendo da TPM delas. Se alguém diz que tá com saudade de você (amigo, amiga, etc), é sinônimo de crise fraterno / familiar / sentimental você não responder na mesma moeda.

Não sei ainda lidar com minhas raivas cegas diante de provocações, de maus tratos e de grosserias que me falam - quer dizer, digitam. E reajo à altura imediatamente. O pior é que um mesmo fator é bom e ruim nesse novo ambiente comunicativo: o tempo que a gente tem para raciocinar. É bom por que podemos dar uma resposta elaborada, argumentar, pesquisar. Mas é uma merda porque a gente faz de qualquer provocação idiota ou resposta grosseira uma celeuma, uma chateação sem fim.

Parei para pensar, num exercício de autocrítica. Já briguei com um amigo que mora na Espanha, pelo e-mail. E fiz as pazes pelo MSN. Já esculachei pelo e-mail uma menina que conheci pelo blog, e-mail, telefone, MSN e depois pessoalmente. Já briguei com um outro amigo gayúcho várias vezes pelo e-mail. Uma outra que ficou me chateando pelo MSN outro dia eu peguei preguiça de conversar. Até mesmo telas de comentários num outro blog que tenho (http://www.bolaetudo.blogspot.com/) viraram espaço para trocar farpas e venenos do mais estrondoso furornesse caso, porém, como são 19 escritores, uma dinâmica mutante e o tema futebol como prato principal, é mais do que compreensível.

Um outro amigo aí, nessa onda de provocar e tratar amigos com palavrões e xingamentos, consegue me tirar do sério toda vez que eu tento estabelecer alguma tratativa de negócios que temos em comum. A maior crise de relacionamento com seres humanos que tive na minha vida foi decorrente de mal-entendido que tomou proporções estratosféricas via blog, e-mail, sms e recados ameaçadores no celular. Ou seja: as pessoas se afastaram de mim sem nem sequer conversar comigo. A briga foi virtual, mas o rancor, o ódio, as mágoas, tudo foi bem real. Todas as partes envolvidas sentiram.

Seria um doido varrido virtual? Estaria eu sempre errado? E todo mundo sempre certo? Acho que não. Nem tanto ao céu como nem tanto à terra. Acho que todo mundo passou, passa e ainda vai passar por isso. Mas uma lição que eu tenho tirado ou tentado tirar – porque não consigo ter frieza para aplicá-las sempre – é: se você tá com muita, muita raiva de uma resposta babaca que te deram, tente, pelo menos, não responder na hora. Vá tomar um café, beber água, feche a janela do e-mail ou do MSN ou do site. De repente você consegue ignorar isso e deixar quieto. Eu dificilmente tenho sucesso nessa missão, mas juro para vocês: vou tentar ser mais legal e menos irascível no mundo virtual. Porque isso tá me deixando insuportavelmente chato também no mundo real.

Sem mais para o momento.

Atualização das 22h39: acabei de ser atacado mais uma vez por um amigo meio implicante. Tomei uma soda limonada e comi um salgadinho antes de responder, por mais que meus dedos tivessem coçando para dar uma resposta à altura da agressão gratuita. E consegui responder, pelo menos, educadamente. Não é o ideal - da próxima vez, vou tentar simplesmente não responder. Mas é uma evolução.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Outono vermelho - Parte III

Mikhailov parecia catatônico. Os olhos de azul intenso faiscavam. Deixara o chá de lado e ficara absorto nos próprios pensamentos.

– Dimitri, fala comi...

– Me dê um minuto, por favor!

Tatiana sabia domar o amigo como ninguém. Mas tinha noção de limites. E aquele era o dele. Definitivamente. Serviu-se de um pouco mais de chá de cereja e escorou as costas no sofá acolchoado.

– Tânia. Qual era a cor do pó que encontraram nas narinas de Dona Oksana?

– Azul...

O rosto de Mikhailov estremeceu, e o corpo afundou no sofá vermelho do salão de chá. Para ele, só poderia ser a mesma substância que dois meses antes matara um velho espião russo. Nenhum perito do governo a identificara, apesar dos inúmeros testes. Mikhailov consumiu mais alguns minutos para decidir que não contaria nada aos superiores. Pelo menos por enquanto. Preferia aprofundar melhor a investigação para depois passar alguma informação ao comando militar russo. Eram tempos de Brezhnev¹. Tempos de Guerra Fria e de instabilidade interna e nos países dominados pelos regime comunista.

Discretamente, Mikhailov colocou a mão por dentro do casaco. Destravou a arma e levantou-se da mesa em um pulo. Puxou Tatiana pelo braço e disse:

– Venha comigo, Tânia. Problemas sérios à vista. Você dirige. Para a casa dos seus pais.

O casal entrou no carro de Mikhailov, um Moskvich 412 verde-escuro, e acelerou pelas ruas de Moscou. Mikhailov aproveitou para falar sobre o espião assassinado. Disse a Tatiana que o velho morrera enquanto investigava o desaparecimento de uma espécie de diário. Ninguém sabia ao certo os detalhes das anotações nem de quem seriam. Mas pareciam ser segredo de Estado.

– Tânia, seu pai tinha um cofre ou algo parecido?

– Não que eu saiba, Dimitri. Você sabe que a gente não se falava.

Por orientação de Mikhailov, Tatiana estacionou o veículo em uma rua adjacente à dos pais. Os dois desceram. O militar olhou para todos os lados antes de entrar no prédio, um belíssimo embora mal-conservado edifício dos anos 40. A fachada deixava os tijolos à vista e ostentava algo que lembrava colunas bizantinas. Dimitri tinha a sensação de que alguém o seguia, mas preferiu ignorar o instinto profissional.

Mikhailov e Tatiana entraram no apartamento por volta das 23h. O imóvel estava há cerca de um mês desabitado. Com o pai desaparecido e a mãe na UTI, nem mesmo ela voltara ali. Fazia, aliás, anos que Tatiana não pisava naquele lugar. Ela reparou com ternura que a decoração permanecia a mesma. Móveis pesados de madeira escura e sofás e poltronas de estampa florida, agora desgastada, permaneciam distribuídos da mesma forma nos quatro cômodos do apartamento.

Mikhailov perguntou pelo escritório. Tatiana apontou uma porta espessa de madeira trabalhada. Estava trancada. Mikhailov deu-lhe um pontapé, sem perguntar nada à herdeira. Tatiana evitou protestos, mas não deixou escapar a oportunidade:

– Você poderia ter me pedido a chave. Está aqui comigo. – disse ela, com um sorriso no canto da boca.

Mikhailov ficou envergonhado, mas não deu ouvidos à provocação da amiga. Deu uma olhada em volta do ambiente. Eram livros e mais livros, de vários assuntos e tamanhos. Também reparou na mesa do dono da casa, perfeitamente organizada. Em cima, uma agenda de capa preta, uma caneta dourada e um peso de papel feito de vidro. Em silêncio, mexeu em quadros, tirou livros do lugar e usou a bota pesada para dar pancadas no chão de madeira. Bem no centro do cômodo, ouviu o que queria: um estampido oco.

– Eu sabia. O velho Andrei não deixaria de ter um cofre em casa. É o que pateticamente fazem todos os antigos membros da KGB.

Aquelas três letras instantaneamente fizeram o ar sair dos pulmões de Tatiana. Era chocante ouvir o nome do pai associado à sigla da maior agência de informação e segurança do mundo, influente internacionalmente a partir dos anos 1950.

– O quê? Papai era da KGB? Por que eu nunca soube, Dimitri?

– Depois eu te explico. Agora, a gente precisa descobrir uma sequência de números capaz de abrir esse cofre aqui – apontou Mikhailov, ao levantar o tapete do escritório e retirar seis pedaços de madeira do piso.

Tatiana respirou fundo. Estava confusa, com a cabeça à deriva em um turbilhão de memórias e lembranças. Agora, sim, algumas atitudes do pai faziam sentido. Mesmo assim, se concentrou:

– Deixa eu dar uma olhada, Dimitri.

– Precisamos de quantos números, Tânia?

– Não sou uma especialista no assunto. você sabe. Mas... Talvez precisemos de seis números.

Tatiana arriscou várias combinações. Tentou aniversários, datas importantes da Revolução Russa, mas nada deu certo.

– Qual era a palavra que Dona Oksana repetiu tantas vezes na UTI? – pensou alto, Mikhailov.

Temniy. Por quê?

– Me dê um pedaço de papel.

Tatiana rasgou uma folha da agenda do pai e a alcançou a Mikhailov junto com a caneta dourada. O militar escreveu as seis letras no papel, rabiscou mais alguma coisa e mostrou a Tatiana.

T = 20
E = 05
M = 13
N = 14
I = 09
Y = 25


– Não entendo, Dimitri.

– É aparentemente simples, Tânia, apesar de todo o conhecimento matemático do teu pai. Cada letra corresponde numericamente à posição dela no alfabeto ocidental, se eu estiver certo. Por alguma razão ele contou isso à sua mãe.

Tatiana tomou o pedaço de papel de Mikhailov e testou os números no segredo do cofre. Gotas de suor escorriam pelo lindo rosto da moça a partir dos cabelos escuros e encaracolados. Ao fim do sexto número, a caixa de metal deixou escapar um estalo. Estava destravada. Mikhailov tomou a frente e pegou a única coisa que jazia no fundo do esconderijo. Não havia joias nem dinheiro. Mas um livro. Ou melhor, um diário.

Sob o olhar atento e incrédulo de Tatiana, Mikhailov leu as iniciais gravadas no pequeno livro de capa de couro preta. J.S. Não precisou de muito esforço para entender que se tratavam de Josef Stalin. Mikhailov e Tatiana sentaram-se lado a lado no piso de madeira do escritório de Andrei Miller-Koeckert e se dedicaram à leitura do material. Os batimentos cardíacos de aceleravam a cada linha escrita em letras elegantes e discursivas.

Uma passada de olhos logo nas quatro primeiras páginas os deixou chocados. Entendiam, naquele instante, o valor do diário e o perigo que ele representava para os alicerces do comunismo no mundo. Se caíssem em mãos norte-americanas, representaria a desgraça para o equilíbrio de forças da Guerra Fria. E uma coisa era certa: a balança certamente penderia para a bandeira listrada em vermelho e branco.

Antes que pudessem continuar a leitura, um homem corpulento e barbudo, de olhar agressivo e frio, apareceu na porta do cômodo. Deu três batidas no pedaço de madeira, o suficiente para assustar de quase morte o casal de militares. Mikhailov e Tatiana ergueram os corpos de supetão.

– Quem é você? – reagiu Tatiana.

– O anjo da guarda. Vamos, me dêem esse diário. A brincadeira de vocês acaba por aqui ­– disse, sereno e tranquilo, o vulto parado na entrada do escritório, ao mesmo tempo em que apontava uma AK-47 em direção ao casal.

– De que lado você está? – adiantou-se Mikhailov.

– Do mesmo lado de vocês, caso me entreguem o diário. Mas uma coisa eu posso te dizer, caro Dimitri Mikhailov, você não deveria estar aqui – explicou o intruso.

Tatiana interferiu na conversa. Estava ansiosa por respostas.

Sei que você é um de nós, camarada. Mas quero e preciso saber do meu pai. E o que houve com a minha mãe?

– Esqueça, Tatiana. Seus pais estão mortos. E até agora não sabemos como esse diário foi parar nos domínios do seu pai, que há anos estava aposentado. Provavelmente, alguma aluninha gostosa dele o encontrou perdido em casa e entregou a ele como uma espécie de recompensa pelos favores sexuais. Seu pai, aliás, não era apenas um bom espião, sabia? Soube morrer com dignidade. Até agora não entendo por que ele não quis dizer onde estava essa porcaria.

Tatiana perdeu o equilíbrio diante de tais palavras. Em poucas frases, o sórdido visitante fora capaz de falar sobre a morte dos pais da maneira mais desrespeitosa e nojenta possível. Era demais para uma filha.

– Olha aqui, seu filho da puta. Você não pode entrar na minha casa e...

O espectro a cortou secamente, sem desviar os olhos da bela russa:

– Tatiana, entendo que você esteja com raiva. Mas as coisas são como são. Se seus pais tivessem destruído o diário, eu não teria que acabar com eles nem acabar com vocês, agora, neste momento. Se os dois fossem inteligentes, me entregariam esse pequeno livro. É a vida de vocês que está em jogo, apesar de perceber que já têm informações demais... – sentenciou o sujeito, com ares de ameaça.

Mikhailov, confuso com a presença do estranho, teve poucos segundos para pesar o passado, o presente e o futuro. Amava o regime. Amava os ideais de Vladimir Ilychi Ulianov, o Lênin. Mas não nutria o mínimo respeito por Josef Stalin e aqueles que o sucediam no poder. Tinha raiva. E da mesma forma se dirigiu ao colega de corporação:

– Sim, sabemos de tudo, meu caro. Mas acredito que, se Josef Stalin era homossexual...

Um estampido aterrorizante tomou conta do escritório da família Miller-Koeckert antes que Mikhailov pudesse terminar a frase. O intruso frio e insano só teve tempo de arregalar os olhos. Um fio de sangue escorreu pela testa do agente da KGB, e o corpo desabou sobre o piso de madeira. O invasor estava morto. Pelas mãos de Tatiana, que escondia uma arma por debaixo do casaco.

– Vamos embora, Tânia. Antes que seja tarde.

– Meu Deus, por que eu fiz isso? Estamos perdidos, Dimitri! Perdidos!

Em menos de seis horas, os dois militares se acomodavam dentro de um dos vagões do principal trem de carga russo, prestes a alcançar a Hungria.

– Dimitri, isso tudo é uma loucura...

– Eu sei, Tânia, eu sei.

­– Será que em algum dia poderemos voltar ao nosso país?

– Talvez em algum outono menos vermelho – encerrou Mikhailov, a balançar, confiante, o diário de Josef Stalin.

Em breve o mundo descobriria os segredos de um dos maiores ditadores da história da humanidade.

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¹ N.A.: Leonid Ilyich Brezhnev, sucessor de Nikita Khrushchev como secretário geral do Partido Comunista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Também chefe de estado por dois períodos: 1960-64 e 1977-82.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Outono vermelho - Parte II


As folhas, apesar da primeira semana de outono, ainda pendiam verdes nos galhos do outro lado da janela. O sol, naqueles dias, insistia em permanecer no céu até quase meia-noite. Mikhailov mantinha o olhar fixo na toalha de mesa estampada com motivos florais, encardida pelo uso e pelo tempo.

Os dois não estavam mais no parque. O militar, tomado pela paranóia, não se sentia à vontade para conversar em ambiente tão aberto e público. A mesa que escolheram, sim, no canto do salão de chá, trazia mais discrição. Ele esperou que o samovar¹ estivesse aquecido e os garçons se afastassem, para, então, deixar Tatiana prosseguir com a história do sumiço do pai.

– Me dê mais detalhes, Tânia – disse Mikhailov, debruçando-se sobre a mesa, sem, no entanto, encarar a amiga.

Ele bem sabia da relação difícil entre pai e filha. Lembrava inclusive dos tempos de academia, nos quais Tatiana passara anos sem trocar uma palavra com ele, apesar de dividirem o mesmo teto. Recordava-se também de quando o velho enfartara. Tatiana dedicara noites ao lado do camarada Andrei Miller-Koeckert.

O esforço da filha, porém, não havia provocado comoção alguma no matemático, descendente de austríaco e russa. Ele sempre fora assim: um pai ausente e rígido. Tatiana nunca compreendera o porquê. E, àquela altura, havia desistido de investir numa relação mais afetuosa.

– Ele saiu de casa no fim da tarde, como sempre. Falou para a mama que precisava comprar cigarros. Nunca mais voltou.

Obviamente, tanto Tatiana quanto Oksana, sua mãe, sabiam que as saídas repentinas do professor universitário eram só mais uma desculpa do velho para encontrar alguma aluna novata, deslumbrada com as teses de álgebra do grande mestre. Mikhailov nem mesmo disfarçava. Demonstrava pouco interesse no assunto:

– Você chegou a falar com a polícia? Desculpe, Tânia, mas por que você me procurou? Costumo gastar o meu tempo com assuntos mais importantes.

Tatiana esperava resposta parecida. Conhecia o temperamento de Mikhailov, que em muito lembrava o do pai.

– Avisamos a polícia três dias depois de ele ter sumido. Só que, para os guardas, esse é apenas mais um bêbado que será encontrado morto na sarjeta... Tenho medo de que o assunto seja mais sério e urgente do que você ou os policiais imaginem.

Apesar da tentativa, a afirmação de Tatiana sequer mudou o semblante displicente do militar.

– Sei muito pouco sobre a vida que meu pai levava – continuou Tatiana. Mas, pelo que consegui pesquisar, ele estava envolvido em um projeto. Não sei do que se trata. Minha mãe disse no leito da UTI...

– Sua mãe? Sua mãe está internada em um hospital? – reagiu, pela primeira vez, Mikhailov.

– É, essa é a outra parte da história... Ela repetia, durante um delírio, a palavra TEMNIY². Acho que está relacionada a...

– Calma, calma, por favor, só um momento. O que aconteceu com Dona Oksana?

Ao contrário de Andrei Miller-Koeckert, Oksana era extremamente dócil. Mikhailov havia encontrado a matriarca algumas vezes e nutria por ela certa simpatia. Ela se fazia de despercebida, mas sempre soubera da relação da filha com o militar e o considerava um partido razoável. Apesar do temperamento.

– Não há diagnóstico, Dimitri. Há dez dias, enquanto buscávamos informações sobre o paradeiro do meu pai, ela vomitou sangue e desmaiou. Os médicos recolheram uma substância em pó das mãos e das narinas dela, mas não conseguem identificar os componentes químicos. Desde então, está no hospital, entre a vida e a morte...

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¹ N.A.: Recipiente culinário de origem russa, usado para aquecer e servir chás. Muito comum na época dos czares e ainda tradicionais nos dias de hoje.
² N.A.: Escuro, em russo.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Outono vermelho - Parte I

Não havia espaço para o medo. Entorpecido pela coragem, o militar Dimitri Mikhailov avançou o cavalo sobre o bispo inimigo e gritou:

– Xeque!

O adversário de tabuleiro tinha sobrenome famoso. Era um mestre do xadrez, acostumado às intempéries dos menos experientes. Vassili Medved descansou o queixo sobre a mão esquerda e se entregou aos próprios pensamentos por cerca 10 minutos. O calor do início do outono russo incomodava as ideias, e a sinfonia urbana ao redor do principal parque de Moscou tampouco ajudava na concentração do velho sociólogo, campeão mundial de xadrez na década de 1950. Medved, enfim, protegeu o rei negro com o auxílio de dois peões e um cavalo e, em quatro jogadas, decretou, sereno:

– Xeque-mate.

Mikhailov reconheceu a genialidade do oponente com um cumprimento resignado de mão. Esperou Medved se levantar, os curiosos se afastarem e ficou sozinho a contemplar o tabuleiro montado sobre a mesa de concreto. Era quase fim de tarde, mas o sol se mantinha firme no céu. Mirou as peças, relembrou as últimas jogadas do adversário e ficou imaginando em que momento teria perdido a concentração e, consequentemente, a partida. Só retornou à realidade no momento em que, à esquerda, um pouco ao fundo, ouviu as batidas do salto alto de uma mulher.

– Há quanto tempo você está por aí, me olhando? – perguntou Mikhailov, sem tirar os olhos das peças restantes.

– O suficiente para te fazer perder.

Tatiana Miller-Koeckert e Dimitri Mikhailov se conheciam desde os tempos da Academia Militar Russa. Foram colegas, parceiros, amigos e confidentes. Oito anos depois de formados, em 1967, seguiam caminhos diferentes dentro da instituição. A belíssima mulher, de cabelos negros e encaracolados, se limitara ao serviço interno. Tinha talento, mas era incapaz de pegar em uma arma. Ele, pelo contrário. Era um dos melhores atiradores da turma. Também um homem fechado e rude, apesar dos 34 anos. O temperamento lhe rendeu pouquíssimos amigos na academia. Mas o ajudou a se especializar em serviços de espionagem. Amava as tarefas mais complicadas.

Os dois não se viam havia um ano e meio. Mesmo assim, a relação construída de forma passional e intensa os unia e os mantinha fiéis, apesar da distância e das diferenças. Essas não eram poucas. Tatiana parecia ser a única capaz de decifrá-lo. Mas odiava os destemperos de Mikhailov. Já ele não tinha a menor paciência com o que definia como “as frescuras de Tatiana”. Em épocas de Guerra Fria, no entanto, toda característica pessoal servia de alguma forma ao bem-estar do país.

– O que você quer? – rosnou Mikhailov, enquanto colocava o casaco por cima da camisa escura.

– Em primeiro lugar, educação. Mas me contento com um olhar.

– Desculpe, Tânia¹. Não perdia daquele velho salafrário havia cinco partidas...

– Entendo. Mas agora preciso de você. Mais do que nunca – disse ela, sem disfarçar as lágrimas.

– O que houve?

– Meu pai, Dimitri. Desapareceu há 45 dias.

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¹ N.A.: Em russo, diminutivo de Tatiana.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Preparem-se


A partir das 7h04 de segunda-feira, o blog mais amado do Brasil presenteará os milhões de leitores ao redor do universo com uma publicação repleta de emoção, aventura e mistério. A história se passa na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) dos anos 60. É tempo de Guerra Fria. Época marcada pela influência da KGB, da espionagem e da contra-informação. Neste cenário, Dimitri Mikhailov e Tatiana Miller-Koeckert, antigos colegas da Academia Militar Russa, se deparam com uma trama capaz de abalar os alicerces do equilíbrio mundial.

Em uma experiência inédita no Totalmente Sem-Noção, domínio virtual carinhosamente chamado de TSN, dois autores assinam a produção. Guilherme G., popularmente conhecido como Goutas, e a jovem escritora Maniunka Zakharova levaram duas semanas para construir, editar e finalizar o texto. O resultado será conhecido em três dias, quando será colocada no ar a primeira das três partes da história. Boa leitura!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Frase do Dia


"Nem o inferno tem a fúria de uma mulher rejeitada"
William Congreve (1670-1729)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O retrato falado


Celestiano era um típico trabalhador brasileiro. Acordava cedo, ralava muito, ganhava pouco. Morava meio longe do centro da cidade, mas pertinho de uma estação do metrô. A minhoca de metal, como que por destino, sempre fora o principal meio de transporte do merendeiro. O rapaz, de 28 anos, não tinha maiores reservas quanto a vida pessoal. Era casado, comunicativo e se dava bem com tudo mundo. Só tinha uma obsessão, que fazia questão de esconder de todos: era um louco apaixonado por pezinhos femininos.

O lugar predileto de Celestiano para observações era justamente o metrô. Examinava as potencialidades alheias nos caminhos de ida e volta para casa. Só que a insanidade pelos pezinhos da mulherada - odiava aquelas que não cuidavam dos dedinhos com extrema dedicação - beirava a esquisitice. O merendeiro não perdia tempo olhando para o rosto da mulherada. Sentava-se perto das portas e mantinha sempre a cabeça voltada para baixo. Fingia concentração em leituras de jornais e de livros ou em joguinhos de celular. Mas, na verdade, estava mais atento do que uma ave de rapina. Sempre que podia fotografava discretamente os pezinhos mais bonitos. Depois, passava tudo para o computador. No último levantamento, contou 392 espécimes registrados. A mulher dele que não descobrisse...

Para mascarar a neurose, Celestiano se convencia de que era um caçador de talentos, Às vezes um cientista. Na cabeça insana do sujeito, o que catalogava, um dia, quem sabe, serviria até para o bem para a humanidade. Acreditava que a observação cuidadosa dos formatos dos dedos das mulheres poderia revelar traços de personalidade e futuras doenças. A bem da verdade, era uma forma de o merendeiro aliviar o peso que muitas vezes sentia ao admitir a si mesmo que não passava de um depravado. Afinal, sentia um tesão maluco antes de sair de casa ou do trabalho por conta da expectativa de ver novos pezinhos no metrô. Se precisasse confessar tal desejo a alguém, sentiria muita vergonha.

Há cerca de duas semanas, um episódio tirou o equilíbrio criado no sensível universo de Celestiano. Encontrava-se mais uma vez acomodado a fingir a leitura de um livro no momento em que, perto de uma estação, um par de pezinhos graciosos, repletos de dedinhos cadenciados, passou em frente a ele com a rapidez de um furacão. Nem dera tempo de tirar uma foto. Para piorar, um gordalhão ainda parou em frente à duplinha de beleza única. Em segundos, o trem parou, as portas se abriram e a mocinha saiu em disparada. Deveria estar atrasada para algum compromisso, pensou o quase trintão. A escapulida, no entanto, provocou uma crise de ansiedade. Precisava rever aqueles pés. E isso que nem sequer conhecia a cara da dona deles.
Celestiano elaborou um plano. Nas próximas duas semanas, repetiria o horário e o vagão do encontro com os pezinhos fugitivos. Teria de ser ao fim da tarde, às 18h14. Ele sabia da dificuldade. Afinal, poderia ser que a moça estivesse a usar sapatos fechados no dia do possível reencontro. Mesmo assim, "pelo bem de todos", orou . Por 10 dias úteis, mergulhou na tarefa de tentar rever tais exemplares tão lindos e generosos. Nada... Talvez a mulher tivesse usado o metrô naquele horário por conta de um compromisso inusitado.

Deu início, então, ao plano B. Tinha noção do extremo perigo que corria, mas resolveu encará-lo. Mesmo colocando em risco o casamento. Celestiano usou a boa memória e um certo talento de desenhista para fazer um retrato falado dos dois desaparecidos. Rabiscou os pezinhos, atento a detalhes como uma tatuagem de borboleta e uma pequeníssima falha no esmalte vermelho do terceiro dedinho do pé esquerdo. Terminou, retocou e concluiu: o desenho era o retrato fidedigno da duplinha sumida. Em cima da imagem, escreveu, em letras garrafais: Procura-se. No rodapé, deixou o próprio número do telefone celular para contato. Finalmente, escaneou a obra-prima, fez várias cópias e colou nas paredes de todas as estações da cidade.

Celestiano percebeu o vacilo logo nas primeiras horas de exposição dos cartazes. Foram no mínimo 30 ligações seguidas. De engraçadinhos a babacas, recebeu manifestações de todos os tipos. Gozações, sacanagens, esporros. Passou a tarde quase sem poder trabalhar. Uma semana depois, continuava a receber chamadas das mais diversas. Em vez de ficar indignado, acabou triste. Até que, em um momento em que não tinha mais esperanças, recebeu a tão esperada ligação, identificada como de um número confidencial:

– Você é o tarado dos pés? – perguntou rispidamente uma voz feminina.

– Er... Sim.

– Olha aqui. Aqueles pés do cartazes são meus, apesar daquela borboleta ridícula que você desenhou apenas lembrar a minha. Pensei vários dias se ligava ou não. Queria só dizer que você é completamente maluco. Vou arrancar todos os cartazes. Ai de você se os pregar de novo. Vai se arrepender, pode ter certeza, seu MALUCO! – gritou a moça, pouco antes de desligar.

Celestiano derramou uma lágrima do outro lado da linha. A reação agressiva da dona de pezinhos tão lindos o assustara. Nunca mais colocou cartazes nem fizera nada parecido. Ficara resignado. Mas quem anda de metrô pela cidade pode reparar em um sujeito com cara de louco sentado ao lado das portas do terceiro vagão dos trens das 5h50 e das 18h05. O merendeiro se senta ali, de celular, livro ou jornal na mão, a viver da esperança de um dia reencontrar seus dois grandes e únicos amores.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A história de Bertrand

Bertrand era solteiro, lascivo e vadio. Comia todas as mulheres de Natal. Bon vivant, tinha grandes amigos, participava de grandes farras. Era daqueles companheiros leais, com o qual todos contavam nas horas difíceis. Era o melhor amigo de cinco em cada dez pessoas de seu relacionamento. Ele era o cara.

Já passava dos 33 anos e continuava solteiro. Vida mundana. Era vizinho de um de seus maiores amigos, se não o maior. Humberto era casado há dois anos. Isolda, uma linda morena capixaba. Esposa atenciosa. Humberto era advogado bem sucedido. Boa gente. Bertrand sempre foi íntimo do casal. Os freqüentava periodicamente. Saíam para jantar com amigos. Quando nosso protagonista arrumava uma namorada, os dois vizinhos eram os primeiros a conhecer a moça.

Certa feita, Humberto teve de viajar a trabalho. Natal já não era uma cidade tranqüila. Sempre que o marido viajava, Isolda ficava na casa da mãe. Mas, naquela semana, os pais da moça estavam fora. Férias. Sem alternativa, Humberto pediu ao grande amigo para posar na casa dele. Seria só uma noite. Isolda ficaria mais segura.

Esse pedido mudou a vida dos três. Bertrand chegou às 21h32 à casa de Isolda. Ela o esperava com um jantarzinho caseiro pronto. Era o mínimo que poderia oferecer por tirar o rapaz de casa apenas para lhe fazer companhia e lhe dar a sensação de segurança. Conversaram com Humberto ao telefone, no viva voz. Brincaram com a situação.

O jantar terminou com um belo Dom José para arrematar. Já passava das 23h. Zapeavam pela televisão e terminaram no Multishow. Um show de Robin Willians era transmitido. O britânico era paixão musical de ambos. O Dom José levou ao Hennessy, que levou a um Couvoisier. E ambos se inebriaram.

Era hora de dormir. Romantismo no ar. Mas só poderia ser coisa da cabeça de um dos dois, oras. Imagine. Humberto e Bertrand eram melhores amigos. Isso é maluquice! O rapaz vestiu sua tradicional calça de pijama xadrez, charmosíssima, elogiada pelas mulheres. Isolda trajou o tradicional baby doll dos dias quentes de Natal. Ficara deliciosa.

Encontraram-se na porta do banheiro. Ele estava a sair, escova de dentes à mão. Ela tentava entrar, cremes faciais à tira colo. Olharam-se fixamente. E atracaram-se. Uma noite louca de tesão e sexo seguida de uma manhã de enorme ressaca moral. Uma noite e nada mais. Humberto jamais saberia. Não valeria à pena estragar uma história de amizade por causa de um erro de percurso. A saída era óbvia e clarividente.

Passaram-se dois meses. Isolda, então, procurou Bertrand. Era uma tarde calorenta de sábado. Humberto dormia pós-almoço quando a moça tocou a campainha do vizinho. Precisamos conversar urgente. Tem de ser agora. Sentaram-se à sala e Isolda não mediu as palavras.

- Estou grávida. E é seu. Eu tenho absoluta certeza.

Silêncio sepulcral. Será mesmo? Como você pode saber? Não tinha erro. Isolda fizera as contas. Nas semanas anterior e posterior à noite fatídica, não transara com o marido. Estava na oitava semana. Só pode ser seu.

Bertrand teve uma reação inesperada. Sobretudo a um vadio lascivo. Abraçou Isolda e prometeu lhe dar todo o apoio do mundo. Gostaria de criar o bebê. Se responsabilizar por ele. Falou até mesmo, sem tanta convicção, em casamento.

Isolda só queria uma coisa: sigilo.

- Amo o meu marido e com ele quero viver minha vida. Não é justo que eu o perca por uma noite, por um erro. Quero que você não conte nada a ninguém, jamais. Vou ter o filho e registrá-lo como se fosse do Humberto. Ele jamais descobrirá. Nunca fará as contas das semanas. E você é muito nosso amigo, poderá estar sempre por perto.

Bertrand pediu dois dias para pensar em tudo aquilo. Terminada a reflexão, chamou Isolda para conversar.

- Eu aceito. Mas com uma condição. Quero ser o padrinho da criança. Preciso de um motivo para tratá-la de uma forma diferenciada das outras pessoas. Um motivo para dar uma atenção especial a ela, fora do comum, acima dos padrões. E é acima dos padrões que vou tratar meu filho.

Isolda aceitou na hora. Cristiane, a bebezinha nascida sete meses mais tarde, seria afilhada de Bertrand. Assim foi feito. O padrinho acompanhou e chorou ao lado de Humberto o nascimento da menina, dentro da sala de parto. Comprou a primeira roupinha da menininha. Tratou de cuidar do bebê desde os primeiros dias.

Humberto ficava satisfeito e emocionado com o envolvimento do melhor amigo no cuidado da filha. Prometera o mesmo carinho aos futuros rebentos de Bertrand, quando viessem.

Seis anos mais tarde, Bertrand se mudou para Brasília. A carreira de administrador evoluiu. Na capital, se apaixonou perdidamente e se casou. Tem hoje três filhos. A atual esposa é a única pessoa na vida para quem Bertrand contou a história de Cristiane. A “afilhada”, por sinal, costuma passar alguns dias de férias com o “padrinho”, em Brasília. Isso quando não viaja de férias com Bertrand e os irmãos que nem sabe que são irmãos. Humberto e Isolda tiveram mais dois filhos. Em alguns réveillons, as duas famílias se reúnem e abraçam-se na virada do ano. Estouram Chandons juntos. A ligação de todos é fortíssima. Não poderia ser diferente.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Lição de vida: uma análise sobre o discurso (genial) de Fernando Vanucci

Amigos, quem dentre vossas almas não viu, nessa leva de vídeos com supostas bobagens do You Tube que nos é oferecida todos os dias, um dos maiores clássicos do audiovisual na internet, em que o protagonista é o nosso folclórico Fernando Vanucci? Pois bem, eu tenho para mim que esta é uma obra de referência, uma espécie de filosofia de vida. Um discurso de ensinamentos para toda o sempre. De doutrinas. Uma visão, uma orientação sobre como devemos ver nossa presença neste planeta. Em todo e qualquer momento de nossa breve existência. Várias mensagens são transmitidas na fala de nosso nobre colega jornalista, em rompante de desabafo, de pura sinceridade, no momento em que este vídeo foi gravado – mais precisamente, ao vivo, instantes depois da Itália ter conquistado a Copa do Mundo de 2006 em cima da França.

A mensagem de Vanucci é tão recheada de verdades que merece ser esmiuçada trecho a trecho. É fundamental que você assista e ouça este vídeo para que a análise sobre tão valioso discurso seja melhor compreendida e, assim, mais facilmente adotada para que possamos todos viver num mundo melhor.



JORNALISMO DE VANGUARDA

“Alô você, Alô Brasil, chegaaaando, é você mesmo.... Itália campeã mundial divudibol! Com todos os méritos, COM TODAS AS JUSTIÇAS”

Vemos aqui um exemplo de new journalism, em que o locutor não se restringe a identificar a notícia ("Itália campeã mundial divudibol"), como também emite um juízo de valor ("com todos os méritos, com todas as justiças") de maneira tão sutil que isto não compromete de forma alguma a informação principal. Poucos fazem isso com a sobriedade e genialidade de Vanucci.

RESISTÊNCIA E SINCERIDADE


é claro, É CLARO que eu também estou inconformado com (o) você. Porque poderia ser hoje... o Brasil... comemorando... o título..........”

Neste trecho, Vanucci é contundente ao afirmar que não devemos aceitar as coisas ruins simplesmente porque elas aconteceram desta forma. É preciso deixar clara sempre nossa indignação com algo que nos aflige. Sinceridade sempre.

AUTO-CRÍTICA E AUTO-ANÁLISE


“Seeeeeeeeee..... Se é fácil perder, perder do jeito que nós perdemos, HEIN?! Ainda é MUITOBAIS difícil, mas MUIDOBAIDIFICIL MEESMO. É difícil perder, sabendo queeeeeee A GENTE NÃO PODE ESQUECER, é difícil esquecer isso.”

É preciso aprender com nossos próprios erros. E Fernando Vanucci, em sua sempre sábia fala, nos leva a uma análise geral de uma situação desastrosa. Por que erramos? Como erramos? O que devemos apreender de nossas falhas?

SERENIDADE, REFLEXÃO E LIÇÕES DO PASSADO


“Tempo, nós vamos ter pa esquecer, sem dúvida. ESTA COPA DO MUNDO DE 2006. Mais 4 anos no mínimo ela vai ficar aqui com a gente, e talvez para sempre. 1950 que jamais foi esquecida, pelo grande favoritismo do Brasil e pelo desastre na final no Maracanã."

Vanucci nos lembra da importância de analisarmos nossas vidas com calma e sobriedade. Com tranqüilidade para que equívocos previsíveis não se repitam. O locutor da Rede TV! também realça a importância de caminharmos para frente sem jamais esquecermos de nossos erros do passado.

TODA AÇÃO GERA UMA CONSEQUÊNCIA: LIÇÃO DE RESPONSABILIDADE

“Agora, que os craques decidiram não jogar é verdade, MAS MUITA VERDADE, não teve espetáculo e o resultado PODERIA SER o que aconteceu exatamente”

Ao dissecar o problema central em questão (“os craques decidiram não jogar”), Vanucci nos lembra com muita maturidade e sobriedade sobre o que acontece em decorrência desta problemática (“o resultado PODERIA SER o que aconteceu exatamente”). Fica aí uma lição para que não sejamos inconseqüentes em nossos atos. Para que ajamos sempre com a noção clara da conseqüências de nossas atitudes mesquinhas.

HUMILDADE E RECONHECIMENTO

“Agora é hora de REVERENCIAR CANNAVARO, TOTTI, ZAMBROTTA, AAAAAAAA ITÁLIA CAMPEÃ MUNDIAL.”

A vida não é perfeita. Nem sempre podemos ganhar. Nem sempre perdemos. Elis Regina já cantava estes versos: “aprendendo a jogar”. E Vanucci é bastante enfático neste ponto de seu discurso: é preciso valorizar os feitos e qualidades dos outros. Ter a humildade de reconhecer as virtudes do próximo. Congratular quem é hábil e capaz em sua função. Sem nenhuma vergonha.

PLANEJAMENTO, PREPARAÇÃO E DESPRENDIMENTO AOS CONCEITOS RETRÓGRADOS

“PRA NÓS, é hora de pensar no futuro, O FUTURO, É HORA DA GENTE REFORMULAR, REFORMULAAAAR. É hora da gente MUDAAAAAAAAR......... OU....... MUDAR DE VEZ.”

Em poucas palavras, Fernando Vanucci nos brinda com uma filosofia positivista, arrojada e rompedora de paradigmas. Não devemos nos prender a conceitos, idéias ou situações a que estamos acostumados somente porque elas são cômodas. Temos de mudar (“OU...... MUDAR DE VEZ”). Nos prepararmos para novos desafios (“é hora de pensar no futuro, O FUTURO”). Romper com tudo o que fazíamos e que nos deixa hoje apenas em uma situação medíocre (“REFORMULAR, REFORMULAAAA”).

TRABALHO EM GRUPO, MENSAGEM REFORÇADA, CONFIANÇA E CAUTELA

“Vamos colocar o castelo de areia ABAIXO, ABAIXO, e reiniciar uma construção sólida para 2010, COPA 2010” ÁFRICA DO SUL TAMBÉM NÃO É ASSIM TÃO LONGE, É LOGO ALI!!!” Caso contrário nós seremos comiiiiiidas... de leões.. (CORTE DA REDETV!)

Mesmo diante de um cenário negativo e nada animador, Vanucci nos incentiva a não deixar a peteca cair. Ele nos estimula a – em grupo, reparem a primeira pessoa do plural na fala (“Vamos colocar...”) – ser ousados. A esquecer tudo o que foi feito de forma equivocada. Sem hesitarmos (ABAIXO, ABAIXO). Vanucci vai além. Ele não se deixa vencer nem mesmo pela distância física e temporal de nossos próximos desafios (“ÁFRICA DO SUL TAMBÉM NÃO É ASSIM TÃO LONGE, É LOGO ALI!!!”). Mas sem nunca nos deixar esquecer dos percalços e riscos que corremos em nossa jornada. (“Caso contrário nós seremos comiiiiidas de leões”). Um verdadeiro ensinamento não só para esta, mas para muitas gerações futuras.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"Meus Deus, que cidade linda!"


Antenor Azevedo tinha motivos de sobra para comemorar. Fora aprovado em concurso público para um cargo de técnico no Ministério da Fazenda, em Brasília. Em breve, trocaria o interior do Paraná pelo Distrito Federal. Além de melhorar o salário e a qualidade de vida, ia ter a chance de conhecer e morar na cidade cantada por Renato Russo. Antenor tinha 29 anos. Era fã incondicional do líder da Legião Urbana desde a adolescência, quando ouviu pela primeira vez Faroeste Caboclo. Enlouquecera desde então.

Ficava horas imaginando que mundo era aquele criado pelo ídolo. Estranhava nomes como Asa Norte, Ceilândia, Taguatinga, Planaltina... E dedicava parte do tempo para ilustrar em quadrinhos e fazer anotações a partir da poesia de Renato Manfredini Júnior. Quando soube do resultado do concurso, Antenor avisou: “Mãe, tô me mudando para Brasília! Vou conhecer a terra do Renato, a senhora acredita???”. Dona Genoveva ficava com o coração apertado, mas sabia que a inteligência do filho o levaria longe. Tinha certeza que o primogênito merecia tal conquista. E melhor ainda se iria para a cidade na qual sempre quis conhecer.

Antenor deveria se apresentar no novo emprego em fevereiro. Mas se programou para chegar dois meses antes, na época das festas de fim de ano. Dizia que precisava de tempo para escolher um apartamento legal e perto do trabalho – nas primeiras semanas ficaria na casa de uns primos. Mas todos sabiam que ele estava mais do que ansioso. Queria enxergar e tocar naquilo que ouvira por toda a juventude. “Mãe, vou de ônibus, viu? Quero saber o porquê de o João (o de Santo Cristo, de tão íntimo) gritar ‘Meu Deus, que cidade linda!’ ao ver a Esplanada dos Ministérios enfeitada pelas luzes de Natal!”. Dona Genoveva, às vezes, não sabia como lidar com a empolgação de Antenor. Preferia, assim, vibrar junto com o filho. Queria curtir a felicidade dele.

Em meados de dezembro, Antenor deixou o Paraná em direção ao Planalto Central do Brasil. Nem dormiu ao longo da viagem. Era excitação demais para descansar o corpo e os olhos. Parecia um menino, de tão radiante. Conversou com todos os passageiros do ônibus. Todos sabiam de cor e salteado a loucura de Antenor pela trupe do Renato Russo. Alguns mais solidários cantavam com ele as canções preferidas. Geração Coca-Cola, Tempo Perdido, Faroeste Cabloco, Eu Sei, Pais e Filhos... Terminava uma e logo engatava outra. Transformou a viagem em excursão de segundo grau.

O futuro funcionário do governo federal só ficou em silêncio ao avançar do ônibus sobre o Eixão Sul. Pronto. Estava encantado com os prédios (“parecem caixas de sapato, são todos iguaizinhos, você não acha?”), o verde abundante e a avenida de sete faixas, três de cada lado e uma central. Em quatro, cinco minutos, estava diante da Rodoviária do Plano Piloto. À direita, enxergou, finalmente, o que só a imaginação até então lhe trouxera: a Esplanada dos Ministérios, em concreto e ferro. “Meu Deus, Meu Deus, gente, que cidade lindaaaa!”, parafraseou João de Santo Cristo, aquele que não tinha medo. Antenor Azevedo chorou. Chorou como criança.

Antenor viveu intensamente a capital federal até o primeiro dia de trabalho. As impressões, as admirações e as estranhezas - fora difícil assimilar os números, o trânsito, a falta de nome nas ruas - pararam em cartas e mais cartas escritas para a mãe. Disse que fora ao Parque da Cidade, só por causa de Eduardo e Mônica – coitado, ainda adolescente, demorara meses para descobrir que o “camelo” do Eduardo não passava de uma bicicleta. Contou à Dona Genoveva que visitou o Bloco B da 303 Sul, onde morou Renato Manfredini Júnior e família. Explicou à mãe as diferenças entre o Plano Piloto e as cidades-satélites, “que nem mais se chamam assim, mãe! Agora é região administrativa, sabia?”.

O paranaense também expandiu os conhecimentos sobre Brasília. Visitou museus, prédios públicos e monumentos. Descobriu Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Burle Marx. Ficou maravilhado com o Teatro Nacional e as obras do artista plástico Athos Bulcão, do qual nunca ouvira falar ("uma injustiça!"). Andou de ônibus (“mãe, o transporte público daqui é horrível, mas tudo bem, a gente se vira”). Pegou a linha 106, a clássica Grande Circular, e rodou e rodou a Asa Sul e a Asa Norte. No fim das contas, conhecia mais da cidade do que muito brasiliense, tão acostumado ao carro. E prometeu à mãe, que, tão logo alugasse “um apê no Sudoeste Econômico”, a traria para fazer “um city tour de primeira”. Antenor Azevedo, o filho da Dona Genoveva, estava realizado. Morava na terra adotada pelo carioca Renato Russo.